Por Fernanda Ribeiro
A imagem de São Benedito na bandeira está bem posicionada, na extremidade do mastro que vai levá-la a 15 metros do chão. Já passa das 13 horas , em frente à casa do capitão do mastro, não por acaso, mais um Benedito, sobrenome Domingos. Os últimos retoques são feitos e os grupos de congada, moçambique e marujada estão a postos. É preciso ser rápido. Está marcado para as 14 horas, um dos momentos mais esperados da festa que celebra o santo cozinheiro. É dali, da Rua José Vito Vilela, que vai sair a procissão que levará o mastro para a praça da igreja, onde será colocado.
Enquanto isso, no pé da escadaria da igreja, uma multidão de devotos se aglomera em volta de um buraco. E, dentro do buraco, centenas de papéis adiantam o preenchimento do espaço que, dali a alguns minutos, receberá o mastro de São Benedito. Em cada pedaço de papel, um pedido, uma oração, um agradecimento, como os expressos nas dezenas de bilhetes da aposentada Mariza Batista.
“Trago pedidos e orações minhas, de meus familiares e amigos. Eles sabem que eu venho sempre à festa e pedem para que eu seja mensageira,” explicou a mineira de Nova Lima, devota de São Benedito há 33 anos, desde que, segundo ela, o santo intercedeu na cura de um problema de saúde de sua filha.
De volta à casa do capitão do mastro, 13h30, já é hora de partir. Arrumar, pintar e decorar o mastro é tradição na família de Benedito Domingos há 56 anos e começou com seu pai, mais um Benedito. “A cada ano, tentamos fazer melhor,”garante.
No altar onde fica a imagem de São Benedito, na garagem da casa do capitão, o Rei e a Rainha da festa, Fábio e Daniele da Silva, visivelmente cansados, fazem a oração antes de sair em procissão . “Neste momento, a fé e a devoção do povo são os combustíveis para cumprirmos as etapas que faltam na nossa missão à frente da festa,” afirmou Daniele, com consentimento do marido.
A cerca de 200 metros de distância da casa do capitão, a família Carvalho está reunida, em frente à casa de Donizete, mais conhecido como “Pricka”. No dia da procissão do mastro, há 6 anos, ali se forma um quartel general da água. Enquanto voluntários trabalham para organizar a procissão, outros para decorar e carregar o mastro, os Carvalho se ocupam de distribuir, gratuitamente, copos e garrafinhas de água para os participantes.
“Teve um ano que um grupo de congada, que participava da procissão, bateu em casa para pedir água e minha mãe deu. Juntou-se uma multidão, de cerca de 50 pessoas, e tivemos que dar água da torneira pra atender todo mundo. Então, no ano seguinte, decidimos nos prevenir e arrecadar água para atender a todos,” contou Maria das Graças que, junto com os irmãos Donizete, João Bosco e Vicentina, arrecadou cerca de 1700 garrafinhas de água este ano.
A procissão com o mastro se aproxima da casa de Donizete e a família, homens, mulheres e até crianças estão a postos, com bacias cheias de garrafinhas de água, posicionadas na rua, pontas para a entrega . Uma bateria de fogos de artifício, montada na laje da casa, saúda a procissão. Os contemplados com a gentileza, da água e do foguetório, sorriem em agradecimento. O grupo de congada pára a música por uns instantes para abastecer a garganta com a água geladinha oferecida pela família de devotos de São Benedito.
Nas imediações da igreja, a multidão a espera do mastro aumenta. Um corredor é aberto pela organização da festa, para isolamento do local onde será erguido o mastro. Um grupo, identificado como “guardiões do mastro”, cuida de retirar as pessoas da área de risco.
O som dos batuques das congadas e moçambiques avisa que a procissão se aproxima. O mastro chega ao destino e é recebido com palmas e aclamações. Hora de silenciar. É chegado o momento da bênção do mastro. O vigário paroquial, padre Ferdinando Mancílio, enquanto abençoa, deseja: ”Que cada vez que as pessoas olharem para o mastro, sintam o desejo de imitar a vida e as virtudes de São Benedito”. Padre Ferdinando define o simbolismo de forma simples e objetiva. “Erguer o mastro significa que ele [São Benedito] está no alto e me protege”.
O trabalho de fincar o mastro exige cuidado, concentração e é coroado com a emoção das palmas dos devotos, que se aglomeram em volta dele, numa tentativa de ter um minuto de intimidade com o santo de devoção.
Um dos primeiros a chegar perto do mastro, Ronaldo Gonçalves, 34 anos, toca e se ajoelha diante do monumento de fé. Vestido com a roupa do seu grupo de congada, Coração de Ouro, Ronaldo representava a cidade de Luz (MG).
São rápidos segundos de oração diante do canal de comunicação entre a Terra e o céu. “Participo da festa desde 1988. Sou muito devoto de São Benedito. Na hora em que ajoelhei, agradeci tudo e pedi que ele permita que ano que vem eu esteja aqui de novo.”







